Manifesto do Projeto Brasil Nação
O Brasil vive uma crise sem precedentes. O desemprego atinge níveis assustadores. Endividadas, empresas cortam investimentos e vagas. A indústria definha, esmagada pelos juros reais mais altos do mundo e pelo câmbio sobreapreciado. Patrimônios construídos ao longo de décadas são desnacionalizados.
Mudanças nas regras de conteúdo local atingem a produção nacional. A indústria naval, que havia renascido, decai. Na infraestrutura e na construção civil, o quadro é de recuo. Ciência, cultura, educação e tecnologia sofrem cortes.
Programas e direitos sociais estão ameaçados. Na saúde e na Previdência, os mais pobres, os mais velhos, os mais vulneráveis são alvo de abandono.
A desigualdade volta a aumentar, após um período de ascensão dos mais pobres. A sociedade se divide e se radicaliza, abrindo espaço para o ódio e o preconceito.
No conjunto, são as ideias de nação e da solidariedade nacional que estão em jogo. Todo esse retrocesso tem apoio de uma coalizão de classes financeiro-rentista que estimula o país a incorrer em deficits em conta corrente, facilitando assim, de um lado, a apreciação cambial de longo prazo e a perda de competitividade de nossas empresas, e, de outro, a ocupação de nosso mercado interno pelas multinacionais, os financiamentos externos e o comércio desigual.
Esse ataque foi desfechado num momento em que o Brasil se projetava como nação, se unindo a países fora da órbita exclusiva de Washington. Buscava alianças com países em desenvolvimento e com seus vizinhos do continente, realizando uma política externa de autonomia e cooperação. O país construía projetos com autonomia no campo do petróleo, da defesa, das relações internacionais, realizava políticas de ascensão social, reduzia desigualdades, em que pesem os efeitos danosos da manutenção dos juros altos e do câmbio apreciado.
Para o governo, a causa da grande recessão atual é a irresponsabilidade fiscal; para nós, o que ocorre é uma armadilha de juros altos e de câmbio apreciado que inviabiliza o investimento privado. A política macroeconômica que o governo impõe à nação apenas agravou a recessão. Quanto aos juros altíssimos, alega que são “naturais”, decorrendo dos déficits fiscais, quando, na verdade, permaneceram muito altos mesmo no período em que o país atingiu suas metas de superávit primário (1999-2012).
Buscando reduzir o Estado a qualquer custo, o governo corta gastos e investimentos públicos, esvazia o BNDES, esquarteja a Petrobrás, desnacionaliza serviços públicos, oferece grandes obras públicas apenas a empresas estrangeiras, abandona a política de conteúdo nacional, enfraquece a indústria nacional e os programas de defesa do país, e liberaliza a venda de terras a estrangeiros, inclusive em áreas sensíveis ao interesse nacional.
Privatizar e desnacionalizar monopólios serve apenas para aumentar os ganhos de rentistas nacionais e estrangeiros e endividar o país.
O governo antinacional e antipopular conta com o fim da recessão para se declarar vitorioso. A recuperação econômica virá em algum momento, mas não significará a retomada do desenvolvimento, com ascensão das famílias e avanço das empresas. Ao contrário, o desmonte do país só levará à dependência colonial e ao empobrecimento dos cidadãos, minando qualquer projeto de desenvolvimento.
Para voltar a crescer de forma consistente, com inclusão e independência, temos que nos unir, reconstruir nossa nação e definir um projeto nacional. Um projeto que esteja baseado nas nossas necessidades, potencialidades e no que queremos ser no futuro. Um projeto que seja fruto de um amplo debate.
É isto que propomos neste manifesto: o resgate do Brasil, a construção nacional.
Temos todas as condições para isso. Temos milhões de cidadãos criativos, que compõem uma sociedade rica e diversificada. Temos música, poesia, ciência, cinema, literatura, arte, esporte – vitais para a construção de nossa identidade.
Temos riquezas naturais, um parque produtivo amplo e sofisticado, dimensão continental, a maior biodiversidade do mundo. Temos posição e peso estratégicos no planeta. Temos histórico de cooperação multilateral, em defesa da autodeterminação dos povos e da não intervenção.
O governo reacionário e carente de legitimidade não tem um projeto para o Brasil. Nem pode tê-lo, porque a ideia de construção nacional é inexistente no liberalismo econômico e na financeirização planetária.
Cabe a nós repensarmos o Brasil para projetar o seu futuro – hoje bloqueado, fadado à extinção do empresariado privado industrial e à miséria dos cidadãos.
Nossos pilares são: autonomia nacional, democracia, liberdade individual, desenvolvimento econômico, diminuição da desigualdade, segurança e proteção do ambiente – os pilares de um regime desenvolvimentista e social.
Para termos autonomia nacional, precisamos de uma política externa independente, que valorize um maior entendimento entre os países em desenvolvimento e um mundo multipolar.
Para termos democracia, precisamos recuperar a credibilidade e a transparência dos poderes da República. Precisamos garantir diversidade e pluralidade nos meios de comunicação. Precisamos reduzir o custo das campanhas eleitorais, e diminuir a influência do poder econômico no processo político, para evitar que as instituições sejam cooptadas pelos interesses dos mais ricos.
Para termos Justiça precisamos de um Poder Judiciário que atue nos limites da Constituição e seja eficaz no exercício de seu papel. Para termos segurança, precisamos de uma polícia capacitada, agindo de acordo com os direitos humanos.
Para termos liberdade, precisamos que cada cidadão se julgue responsável pelo interesse público.
Precisamos estimular a cultura, dimensão fundamental para o desenvolvimento humano pleno, protegendo e incentivando as manifestações que incorporem a diversidade dos brasileiros.
Para termos desenvolvimento econômico, precisamos de investimentos públicos (financiados por poupança pública) e principalmente investimentos privados. E para os termos precisamos de uma política fiscal, cambial socialmente responsáveis; precisamos juros baixos e taxa de câmbio competitiva; e precisamos ciência e tecnologia.
Para termos diminuição da desigualdade, precisamos de impostos progressivos e de um Estado de bem-estar social amplo, que garanta de forma universal educação, saúde e renda básica. E precisamos garantir às mulheres, aos negros, aos indígenas e aos LGBT direitos iguais aos dos homens brancos e ricos.
Para termos proteção do ambiente, precisamos cuidar de nossas florestas, economizar energia, desenvolver fontes renováveis e participar do esforço para evitar o aquecimento global.
Neste manifesto inaugural estamos nos limitando a definir as políticas públicas de caráter econômico. Apresentamos, assim, os cinco pontos econômicos do Projeto Brasil Nação.
1 Regra fiscal que permita a atuação contracíclica do gasto público, e assegure prioridade à educação e à saúde
2 Taxa básica de juros em nível mais baixo, compatível com o praticado por economias de estatura e grau de desenvolvimento semelhantes aos do Brasil
3 Superávit na conta corrente do balanço de pagamentos que é necessário para que a taxa de câmbio seja competitiva
4 Retomada do investimento público em nível capaz de estimular a economia e garantir investimento rentável para empresários e salários que reflitam uma política de redução da desigualdade
5 Reforma tributária que torne os impostos progressivos
Esses cinco pontos são metas intermediárias, são políticas que levam ao desenvolvimento econômico com estabilidade de preços, estabilidade financeira e diminuição da desigualdade. São políticas que atendem a todas as classes exceto a dos rentistas.
A missão do Projeto Brasil Nação é pensar o Brasil, é ajudar a refundar a nação brasileira, é unir os brasileiros em torno das ideias de nação e desenvolvimento – não apenas do ponto de vista econômico, mas de forma integral: desenvolvimento político, social, cultural, ambiental; em síntese, desenvolvimento humano. Os cinco pontos econômicos do Projeto Brasil são seus instrumentos – não os únicos instrumentos, mas aqueles que mostram que há uma alternativa viável e responsável para o Brasil.
Estamos hoje, os abaixo assinados, lançando o Projeto Brasil Nação e solicitando que você também seja um dos seus subscritores e defensores.
30 de março de 2017
Subscritores originais:
Adhemar Bahadian, embaixador
Aírton dos Santos, economista
Alexandre Abdal, sociólogo
Alexandre Padilha, médico
Alfredo Bosi, crítico e historiador
Altamiro Borges, jornalista
Ana Lila Lejarraga, psicóloga
André Singer, cientista político
Angelo Del Vecchio, sociólogo
Anne Guimarães, cineasta
Antônio Corrêa de Lacerda, economista
Aquiles Rique Reis, músico
Arthur Chioro, médico
Benedito Tadeu César, economista
Bete Mendes, atriz
Beto Almeida, jornalista
Carina Vitral, estudante
Carlos Gadelha, economista
Carlos Henrique Horn, economista
Carmem da Costa Barros, advogada
Cassio Silva Moreira, economista
Celso Amorim, embaixador
Chico Buarque de Hollanda, músico e escritor
Cícero Araújo, cientista político
Ciro Gomes, político
Claudia Garcia, psicóloga
Claudio Accurso, economista
Clemente Lúcio, economista
Cristiano Zanin Martins, advogado
Eclea Bosi, psicóloga
Eduardo Fagnani, economista
Eduardo Guimarães, jornalista
Eduardo Plastino, consultor
Eleonora de Lucena, jornalista
Eleutério Prado, economista
Emir Sader, sociólogo
Ennio Candotti, físico
Eny Moreira, advogada
Eric Nepomuceno, jornalista
Ermínia Maricato, arquiteta
Etzel Ritter von Stockert, matemático
Eugênia Augusta Gonzaga, procuradora
Eugenio Aragão, subprocurador geral da república
Fabian Domingues, economista
Fabiano Santos, cientista político
Fábio Cypriano, jornalista
Fábio Konder Comparato, jurista
Fania Izhaki, psicóloga
Felipe Loureiro, historiador
Fernanda Marinho, psicanalista
Fernando Haddad, professor universitário
Fernando Morais, jornalista
Francisco Carlos Teixeira da Silva, historiador
Franklin Martins, jornalista
Frei Betto, religioso e escritor
Gentil Corazza, economista
Gilberto Bercovici, advogado
Guilherme Estrella, geólogo
Hélgio Trindade, cientista político
Hélio Campos Mello, jornalista
Hildegard Angel, jornalista
Humberto Barrionuevo Fabretti, advogado
Iran do Espírito Santos, artista
Isabel Lustosa, historiadora
Jandira Feghali, deputada
João Pedro Stedile, ativista social
João Sette Whitaker Ferreira, urbanista
João Sicsú, economista
José Carlos Guedes, psicanalista
José Francisco Siqueira Neto, advogado
José Gomes Temporão, médico
José Joffily, cineasta
José Luiz Del Roio, ativista político
José Marcio Rego, economista
José Viegas Filho, diplomata
Kiko Nogueira, jornalista
Kleber Mendonça Filho, cineasta
Ladislau Dowbor, economista
Laerte, cartunista
Laura da Veiga, socióloga
Laurindo Leal Filho, jornalista
Leda Paulani, economista
Leonardo Francischelli, psicanalista
Leopoldo Nosek, psicanalista
Lucas José Dib, cientista político
Luciana Santos, deputada
Luís Augusto Fischer, professor de literatura
Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira, historiador
Luiz Carlos Azenha, jornalista
Luiz Carlos Barreto, cineasta
Luiz Carlos Bresser-Pereira, economista
Luiz Costa Lima, crítico literário
Luiz Felipe de Alencastro, historiador
Luiz Fernando de Paula, economista
Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, economista
Manuela Carneiro da Cunha, antropóloga
Marcelo Lavenere, advogado
Marcelo Rubens Paiva, escritor
Marcia Tiburi, filósofa
Marcio Pochmann, economista
Marcos Gallon, curador
Margaria Genevois, ativista de direitos humanos
Maria Auxiliadora Arantes, psicanalista
Maria da Graça Pinto Bulhões, socióloga
Maria Izabel Azevedo Noronha, professora
Maria Nilza Campos, psicanalista
Maria Rita Kehl, psicanalista
Maria Rita Loureiro, socióloga
Maria Theresa da Costa Barros, psicóloga
Maria Victoria Benevides, socióloga
Mario Bernardini, engenheiro
Mario Canivello, jornalista
Mario Ruy Zacouteguy, economista
Marize Muniz, jornalista
Maurício Reinert do Nascimento, administrador
Miguel do Rosário, jornalista
Mino Carta, jornalista
Moacir dos Anjos, curador
Nabil Araújo, professor de letras
Nelson Brasil, engenheiro
Nelson Marconi, economista
Ney Marinho, psicanalista
Nilce Aravecchia Botas, arquiteta
Odair Dias Gonçalves, físico
Olímpio Alves dos Santos, engenheiro
Olímpio Cruz Neto, jornalista
Oswaldo Doreto Campanari, médico
Otavio Velho, antropólogo
Paulo Henrique Amorim, jornalista
Paulo Nogueira, jornalista
Paulo Salvador, jornalista
Paulo Sérgio Pinheiro, sociólogo
Paulo Timm, economista
Pedro Celestino, engenheiro
Pedro Dutra Fonseca, economista
Pedro Gomes, psicanalista
Pedro Paulo Zaluth Bastos, economista
Pedro Serrano, advogado
Raduan Nassar, escritor
Rafael Valim, advogado
Rebeca Schwartz, psicóloga
Regina Gloria Nunes de Andrade, psicóloga
Reginaldo Mattar Nasser, sociólogo
Reinaldo Guimarães, médico
Renato Janine Ribeiro, filósofo
Renato Rabelo, político
Ricardo Amaral, jornalista
Ricardo Carneiro, economista
Ricardo Dathein, economista
Roberto Amaral, cientista político
Roberto Saturnino Braga, engenheiro e político
Roberto Schwarz, crítico literário
Rodolfo Lucena, jornalista
Rodrigo Vianna, jornalista
Rogério Cezar de Cerqueira Leite, físico
Rosângela Rennó, artista
Samuel Pinheiro Guimarães, embaixador
Sebastião Velasco e Cruz, cientista político
Sérgio Barbosa de Almeida, engenheiro
Sérgio Mamberti, ator
Sérgio Mendonça, economista
Tata Amaral, cineasta
Telma Maria Gonçalves Menicucci, cientista política
Vagner Freitas, sindicalista
Valeska Martins, advogada
Valton Miranda, psicanalista
Vera Bresser-Pereira, psicanalista
Vicente Amorim, cineasta
Wagner Moura, ator e cineasta
Walter Nique, economista
William Antonio Borges, administrador
Wilson Amendoeira, médico
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