Acesso de humor

Autor original: Luísa Gockel

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Ilustração: Ricardo Ferraz
Um grupo de organizações se uniu para lançar a campanha Acesso de Humor, que trata a questão da acessibilidade de forma mais leve e divertida. O objetivo é distanciar a reflexão da questão da obrigatoriedade da lei e fazer com que o tema esteja presente no dia-a-dia das escolas, organizações e empresas. Uma das questões centrais da campanha é a importância de conectar o discurso à pratica, pois muitas organizações da sociedade civil, inclusive as que trabalham com o tema da inclusão, ainda não incorporaram atitudes e práticas que atendam às condições de acessibilidade.

A idéia surgiu a partir de um incidente nada incomum para as pessoas com dificuldade motora. Num encontro de membros da ONG Ashoka Empreendedores Sociais, não havia condições de acessibilidade, o que impossibilitou a participação de uma colaboradora. O ocorrido serviu como pontapé inicial para que a organização adotasse uma postura inclusiva. “Pouco tempo depois, a Ashoka abriu inscrições entre seus fellows [como são chamados os empreendedores sociais apoiados pela entidade] para o fundo que permite a colaboração para executar algum projeto de interesse mútuo”, conta Marta Gil, vice-presidente e fundadora da ONG Amankay. Ela conta que aproveitou a oportunidade e elaborou um projeto com o objetivo de introduzir o tema da acessibilidade nas agendas da Ashoka e, de maneira geral, de toda a sociedade civil.

Além de viabilizar financeiramente a campanha, a Ashoka abraçou a causa. O selo da iniciativa está no site da entidade e sua postura também é outra. "O olhar inclusivo, de respeito e acolhimento à diversidade, é um fato. Somos mais de 250 fellows no Brasil e muitos outros em muitos países. Isso significa que a adesão da organização tem repercussões difíceis de quantificar, mas de extrema importância, pois os fellows são formadores de opinião em suas respectivas áreas”, conta Marta.

Além da Ashoka e da Amankay, a Futurekids do Brasil, a Associação Brasileira de Síndrome Pós-Pólio, a Associação Rodrigo Mendes, o Instituto Interamericano de Deficiência e Desenvolvimento Inclusivo e o Portal Planeta Educação são alguns dos divulgadores incansáveis da campanha, segundo Marta Gil. O diferencial da iniciativa está justamente na forma como o tema é tratado. “Acho que o humor é uma ferramenta maravilhosa e eficiente. É só lembrar o papel do [jornal alternativo] Pasquim na ditadura”, comenta Marta.

Elisete Baruel, da Futurekids do Brasil, explica que qualquer pessoa pode enviar um cartum bem-humorado sobre o tema. Temos um fotolog para que as pessoas possam mandar seus cartuns e também utilizá-los como quiserem, desde a formação de educadores até o treinamento de pessoal numa empresa”, diz. Segundo ela, a idéia de fazer uso do humor surgiu principalmente porque o assunto sempre é tratado de forma muito pesada. “Então pensamos em lançar uma campanha para tratar o assunto de forma mais solta e alegre. E mostrar que acessibilidade não é só coisa de quem tem uma deficiência, mas é pra todos”, conta Elisete.

Os cartuns presentes no site da campanha não tratam só de pessoas com deficiência, mas também de idosos e de questões raciais. “Falamos de todas as iniciativas que promovam a inclusão para todos. Ter uma calçada acessível não é só para o deficiente, é também para o idoso, para a gestante e para uma pessoa com o carrinho de bebê”, diz. Além dos desenhos, o grupo elaborou uma cartilha, que pode ser usada na escola ou em qualquer organização ou empresa. “A cartilha explica o que é acessibilidade de forma bem didática, com algumas ilustrações e problemas freqüentes, como a melhor forma de ajudar uma pessoa com deficiência. Isso é importante porque, quando não convivemos com uma pessoa com deficiência, não sabemos como ajudar ou como nos comportar”, ela observa.

Segundo Elisete, o momento é de divulgar a campanha e buscar financiamento para que as cartilhas possam ser impressas e distribuídas gratuitamente. “Estamos buscando novos parceiros que coloquem o selo da campanha nos e-mails e nas páginas da internet, para ajudar na divulgação”. Para Elisete, a iniciativa é fundamental para que a questão não fique só associada à força da lei, mas que gere uma consciência da importância da acessibilidade. “Queremos que seja um movimento livre e espontâneo da consciência de cada um. Queremos que as pessoas pensem nas pequenas mudanças que podem fazer para receber uma pessoa com deficiência”, afirma.

Luísa Gockel

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